#18
Nesse domingo, 20 de outubro, me lembrei no meio da tarde da frase de um dos meus filmes preferidos, A Excêntrica Família de Antônia. A frase, que não consigo transcrever literalmente, era algo como “e o tempo passou, ignorando tudo o que nos era importante”.
Desde que vi esse filme pela primeira vez, há quase 30 anos (a obra é de 1995), essa frase nunca deixou de me tocar. Porque acredito que fala do que nunca deixa de me impressionar: a passagem do tempo e seus efeitos inevitáveis sobre todos nós.
Quando eu era criança e tinha minhas primeiras experiências com a ansiedade que acompanha a todos nós diante de alguns acontecimentos (uma prova na escola, a apresentação de algum trabalho, coisas assim), costumava acalmar a mim mesma pensando que, independente do que acontecesse durante o evento, o tempo passaria e a hora ou o dia depois chegariam. E o que então estava me causando tanta agonia teria passado.
A pequena Renata de então já se encantava com a passagem do tempo, ainda que não conseguisse ter muita noção disso nem soubesse explicar essa forma de amar o desenrolar da vida. Mas isso ficou em mim desde então, e foi sempre uma forma de me dar uma dimensão menor e mais acolhedora para qualquer coisa que me acontecesse. Porque, talvez a despeito do que pareça lógico para algumas pessoas, a pequenez sempre me deixou tranquila e em paz. Pensar que algo gigantesco seria, com o passar do tempo, uma miudeza da vida ou um registro ínfimo na memória me deu desde sempre leveza e calma e se tornou uma forma de caminhar pela vida.
Daí que quando assisti A Excêntrica Família de Antônia, esse filme que fala e retrata a passagem do tempo, o envelhecimento e a morte das pessoas de uma família, senti como se alguém tivesse conseguido traduzir o que em mim sempre existiu como um silencioso e suave alívio. A frase que citei no início talvez seja apenas a síntese disso que está nessa obra em cada cena, em cada silêncio e em cada representação dos dias passando calmos, ainda que as vidas humanas estivessem vivendo turbilhões.
Mas por que será que me lembrei dessa frase e de tudo isso no domingo chuvoso de ontem? Me fiz essa pergunta e pensei que essa semana tive algumas vivências curiosas com o tempo.
Depois de meses de secura e semanas de calor intenso, como sabemos todos os goianienses, outubro trouxe a chuva, escureceu os dias e baixou a temperatura. Eu sempre agradeço, aproveito e me emociono. Gosto de saber que isso vai acontecer. E acho que isso também tem a ver com ter vivido tempo suficiente para aprender que, ainda que os meses de seca nos castiguem demais, o tempo vai passar, outubro vai chegar e as coisas vão mudar. Com a chuva e a queda na temperatura, tudo muda. E muda rápido: sentimos nossos corpos mais confortáveis com a umidade e as plantas se renovam e parecem ressuscitar depois de experimentarem uma aparente morte muito concreta, seca e triste. Esse ano, ainda que estejamos todos em alerta por conta das mudanças climáticas, o tempo passou e nos trouxe o previsto. E o calor incômodo, que por semanas foi tema onipresente nas conversas e nos desconfortos de todos, passou, como que ignorado pela natureza e a importância que possamos ter dado para esse mal estar. De novo, a passagem do tempo fez menor o que nos pareceu enorme, onipresente e onipotente em sua capacidade de nos maltratar.
Ainda essa semana, fiz também mais uma tatuagem. E essa foi a sétima vez que marquei no meu corpo um desenho permanente. Antes de fazer a primeira e desde sempre, me perguntei como eu poderia gostar tanto da ideia de driblar a passagem do tempo e marcar na pele algo que dela não sairia mais. Justo eu, que gosto tanto da insignificância e da finitude de todas as coisas. Mas talvez esteja aí um dos efeitos da beleza da passagem do tempo: ele passa, ignora o que para nós é grandioso e importante, mas nós fazemos, vida afora, registros internos e externos do que a cada instante foi significativo. Eu escrevo em telas variadas, falo um bocado, desenho em alguns papéis e também deixo minha pele ser suporte para algumas imagens. Nada disso existirá para sempre. Mas enquanto eu e minha consciência existirmos, todos esses registros marcarão instantes antes valiosos e uma vida que se passa e acaba sendo vivida e deixando marcas.
Não consigo não pensar na beleza do que é feito por esse duelo singular entre eternidade e finitude, linguagem e tempo, registro e fugacidade, humanidade e natureza. Participo disso, como todos nós, reverenciando o tempo, dançando com minha pequenez e fazendo o que me cabe na minha vida para dar a ela a eternidade fugaz de ser uma existência interessante. É gostoso, e me vale muito.

