#32
Sinto um grande pesar por ter abandonado esse espaço. Especialmente uma sensação de que falhei comigo mesma, já que gostaria de ter sido mais cuidadosa com algo que criei e que é valioso pra mim, como escrever. Como comentei na longínqua última edição dessa newsletter, tenho escrito (entradas de diário, pequenas histórias, poemas), mas guardo tudo pra mim, ainda tímida de mostrar o que produzo. Mesmo assim, escrever criativamente tem sido produto e produtor de um movimento interior muito interessante - e também valioso. Percebo que não cheguei a isso por acaso.
Nesses últimos dias, já de férias, li o livro O crematório frio, de József Debreczeni. O livro é um relato fortíssimo sobre a experiência do autor em três campos de concentração do complexo de Auschwitz, durante a Segunda Guerra Mundial. Foi escrito em 1950 mas só agora teve tradução fora da Hungria, país natal de Debreczeni. Cheguei a esse livro por uma indicação da Cora Rónai, mas na esteira de uma fixação antiga minha em relatos do horror pelo qual passaram os sobreviventes dos campos de concentração desse período da história. Sou impressionada pelo tema desde que me entendo como alguém capaz de ter alguma mínima compreensão do assunto e, aos poucos, tenho entendido um pouco mais do porquê representações desse período me capturam tanto.
Além do interesse histórico, cultural e político que o tema me desperta, há algo que saber sobre isso faz por mim que tem a ver com dar forma para uma espécie de terror que me habita. E que não é nada original, obviamente: é o terror do desamparo, da ruína, da destruição mais absoluta. Muito cedo, acredito que assim que soube um pouco do que significou a desumanização imposta pelos nazistas aos que foram confinados nos campos, aquela foi a forma que destruição total tomou dentro de mim. E, sabemos: uma vez que o terror tem forma, é mais “fácil” lidar com ele, ainda que permaneça sendo muito difícil. É para isso, entre muitas outras coisas, que fazemos análise, para dar forma ao que em nós ainda não tem e por isso nos faz sofrer tanto.
É por isso que há décadas relatos e representações do que aconteceu na Segunda Guerra me fisgam: leio e assisto quase tudo o que posso e cai nas minhas mãos. Foi assim com esse livro, que é uma obra prima em termos de documento histórico/jornalístico (Debreczeni foi jornalista), mas também do ponto de vista literário - a poética do texto é primorosa. Mas, dessa vez, sinto que o relato chegou em mim de outra forma. Talvez provocando outra coisa além de “apenas” (porque isso não é pouco) dar forma para o terror que me habita e que temo.
Eu me peguei pensando no que resistiu aos esforços de desumanização impostos pelos nazistas a quem estava nos campos e, especialmente, a József. Primeiro porque o relato que ele faz é tão duramente cru que impressiona que ele - e qualquer outro - tenha sobrevivido. Mas principalmente porque ele não apenas sobreviveu, mas o fez conseguindo criar. Cinco anos depois do horror, ele escreveu o livro que em 2025 chegou aos leitores brasileiros e à minha mão. Mas até mesmo antes disso, e Debreczeni o conta muito bem, durante o período que passou no campo, ele e alguns companheiros conseguiam, nos dias menos tenebrosos, se reunir e conversar. E imaginar coisas. E fazer planos. Me tocou profundamente o momento em que ele conta que em conversas com um amigo editor, também húngaro, ouviu desse amigo que, saindo do campo, escreveria um livro para contar tudo o que tinha vivido ali.
Ou seja: a desumanização que os nazistas se esforçaram tanto por promover não foi absoluta porque eles não conseguiram destruir a capacidade criativa dos que ali estavam. Uma capacidade ancorada na linguagem, nossa mãe, nossa matriz, a grande geradora da nossa humanidade e da nossa consciência. É claro, muitos pereceram e Debreczeni mesmo percebe que em muitos dias era impossível falar, o que demonstra a vileza e o poder destrutivo dos fascistas e o quão profundamente eles atacaram suas vítimas, mas mesmo assim algo pôde permanecer. E algo permanece.
Saí da leitura desse livro muito tocada com isso. Pensando fortemente no quanto, enquanto temos capacidade criativa, ainda nos resta condições para inventarmos um mundo - para nós e para os demais. E no quanto isso começa, sempre, pela linguagem. Talvez por isso eu esteja em estado tão profundo de encantamento com a escrita: a dos outros e a minha. Nesse último caso, não exatamente por sua qualidade, mas pelo fato dela existir. Posso escrever, e com isso posso criar. Sou, como somos, dotada de consciência e capacidade inventiva. E isso faz de mim e de todos nós seres capazes de resistir e fazer frente à destruição. De, diante da ruína, reconstruir. A nós mesmos e ao mundo.
Terminar 2025 apaixonada pela possibilidade criativa que nos habita tem sido bonito. Por isso vou me arriscar um tanto mais e deixar aqui um poeminha escrito em meio a esse deslumbramento. E desejando que em 2026 não nos percamos da capacidade de criar que está em todos nós.
A eternidade
Houve um breu.
E nele, de uma mão se fez
leite, e foz, uma voz
e a letra.
Da letra, a nascente
todas as fozes
as luzes
e os poentes.


Que bonito! Por mais fozes, mais letras, mais criações. ❤️
Que bom te ler de novo. ❤️